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Leda Saraiva Soares
Natural de Osório. Residiu em Tramandaí desde a mais tenra idade. Professora, escritora, pesquisadora, historiadora da região Litoral Norte. Licenciada em Língua Portuguesa e Literaturas pela PUCRS. Membro da Academia de Escritores do Litoral Norte/RS. Membro correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Santo Antônio da Patrulha; Patrona da Biblioteca da Escola Estadual de Ensino Médio 9 de Maio - de Imbé.

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  Leda Saraiva Soares
 
01/05/2011
Folclore - Benzedeiras e Benzeduras

Para variar um pouco o assunto, vou intercalar “Os Contos e Lendas da Região” com Folclore., capítulo 6 do meu livro Tramandaí/Imbé 100 anos de História PP.201,202,203,204,205,206.


A BENZEDURAS

No último quartel do século XIX, até os anos quarenta do século XX, a população de Tramandaí e do litoral gaúcho, por falta de assistência médica e pela forte tradição que seus antepassados portugueses e açorianos trouxeram do além-mar, recorriam a benzeduras e a tratamentos alternativos com ervas e simpatias, na esperança de curar suas mazelas.
A religiosidade dos primeiros habitantes do litoral era muito forte. O praiano ficava isolado nos dez meses da baixa estação. Para compensar a carência de assistência religiosa, pois pároco de Osório atendia as praias apenas em determinadas datas, surgiam lideranças na comunidade, como as rezadeiras de terços que também encomendavam defuntos e rezavam terços nas novenas e em velórios. As famílias combinavam encontros para rezarem o terço, tão apreciados pela comunidade de fé que buscava em Jesus e em Maria, o consolo para seu sofrimento.


BENZEDEIRAS DO INÍCIO DO SÉCULO XX EM TRAMANDAÍ.

Benzedeiras eram mulheres com dons especiais, nas quais as pessoas depositavam muita fé. A fórmula da benzedura é como uma oração e apresenta certo ritmo e uma maneira especial, no falar da benzedeira. Nos povoados, sempre havia algumas benzedeiras, procuradas pelos moradores, por seus prodígios de cura. Em Tramandaí havia D. Aninha, o Sr. Zeca Nunes, a Clara de Oliveira, Dª.Filuta (Altiva de Souza Neto) e outras.
Havia também as parteiras, mulheres que a dura vida forçou a desempenhar essa atividade e que se tornavam experientes e respeitadas pela população: D Alicinda, Antônia “gringa”, filha de Alicinda e irmã de Clara,
Para cada tipo de mazela, havia um tipo de oração. Na verdade, de tanto ouvir a benzedeira, pessoas da família aprendiam tais orações. Na ausência de uma benzedeira conceituada, alguém tentava benzer, testando seus poderes curativos.
Dª. Filuta, cujo nome era Altiva de Souza Neto, também benzia, quando se fizesse necessário. Certa ocasião, a autora desta obra, gravou uma entrevista que fez com esta senhora sobre benzeduras. É muito interessante, porque a benzedeira se concentra convicta do que está fazendo e, com muita fé, desempenha o seu papel. Para cada mal há uma fórmula de oração e material específico a ser utilizado. Existe todo um ritual, por exemplo, se alguém vai se benzer de quebranto, coloca três galhos verdes dentro de um copo com água, cuidadosamente providenciados pela benzedeira. O ambiente é de silêncio e compenetração. O doente coloca-se diante da benzedeira de forma compenetrada, de entrega. O rito começa com o sinal da cruz. No caso da benzedura de quebranto, a benzedeira retira do copo com água o primeiro galho verde e, medida que reza, vai batendo delicadamente com o pequeno ramo verde, em cruz, aspergindo água sobre a pessoa que se deixa benzer. A reza é feita com concentração e de forma declamada com ritmo e entonação especial, parecendo vir lá dos ancestrais, do outro lado do mar...
Dizem... Quando a pessoa está “carregada de quebranto ou mau-olhado”, a benzedeira boceja muito, durante a benzedura e o galho, inicialmente verde e viçoso, fica murcho. Daí, a expressão: Estás necessitando que te passem o galho!...
Para ilustrar, segue o registro de fórmulas verbais de benzeduras, proferidas por Dona Filuta. As transcrições foram registradas, respeitando-se o modo de falar da benzedeira:
Obs.: As definições das doenças foram transcritas do Dicionário Aurélio, para maior entendimento do leitor.


BENZEDURAS

Erisipela: inflamação aguda da pele, em geral, dos membros inferiores, caracterizada por calafrios, rubor local intenso e febre alta.
:
A benzedeira sempre faz o sinal da cruz no início e no final da oração. Depois, em voz alta, profere a fórmula específica da benzedura:

- “Esipla, esiprela”, que veio fazer aqui? Eu sou um raio que te veio partir.
- Se mandaram um raio para me partir, eu quero derreter daqui, da perna do fulano como o sal derrete na água.
- Com nome de Deus e da Santíssima Trindade.
Sinal da cruz.

Dor de dente

Sinal da cruz.
Ia Jesus pelo caminho com seus apóstolos. Encontrou com Pedro sentado em uma pedra.
- O que tens, Pedro, com tua boca aberta, teus olhos chorando?
- É dor de dente, Senhor.
- Eu te benzo de dor de dente que passa, de bicho que morra, de sangue que desça. Com nome de Deus e das três pessoas da Santíssima Trindade.
Faz o sinal da cruz.


Sangue (hemorragia)

Sinal da cruz.
Lucas e Mateus cortam mato em campos seus.
O Lucas cortou-se, Mateus benzeu:
-Sangue, fonte natural,
Como Jesus no seu altar.
Sangue, fonte do teu corpo,
Como Jesus Cristo foi morto.
Sangue, fonte de .........(?) (inaudível na gravação).
Jesus Cristo viu nascer.
Assim eu te benzo com essas palavras e as três pessoas da Santíssima Trindade.
(Rezam-se algumas Ave-Marias em louvor a um Santo).

Insolação, flato, hemorragia, ar.

Insolação: demasiada exposição da pessoa ao sol.
Flato – dor que se sente perto da região do coração.
Hemorragia - perda de sangue.
Ar - repuxos da boca para um lado do rosto, decorrente de se estar em lugar quente e, de repente, se expor ao frio.

Material: um vidro pequeno com água e um lenço branco dobrado em quatro partes.
O lenço dobrado é colocado sobre a cabeça da pessoa que vai ser benta. Sobre este, no momento da benzedura, vira - se o vidro cheio de água, pressionando-o, delicadamente, sobre o lenço para que a água não fuja.
Sinal da Cruz
Deus é o sol. Deus é a lua. Deus é a claridade. Deus é a verdade.
Se tem ar, ou flato, ou sangue, ou sol.
Ou ar do dia, ou ar da noite,
Ou ar das estrelas, todos os ares.
Peço a Jesus Cristo, com suas mãos, retirar do corpo do (fulano) o sol.
Em nome de Deus e da Santíssima Trindade.
Reza - se a seguir: Três Ave - Marias e um Creio, oferecendo - se ao Santo da devoção.
Sinal da Cruz.

Rendidura, torsão mau jeito. Esta benzedura é feita em forma de diálogo entre a benzedeira e a pessoa que se deixa benzer.
Material: uma agulha com linha e um pano. Enquanto a benzedeira profere as palavras, costura o pano como se estivesse consertando a parte doente (nervo rompido, pisado... dor na coluna...)
Sinal da Cruz
- Que coso?- pergunta a benzedeira.
- Nervo torto, osso rendido e carne quebrada (responde a pessoa).
E a benzedeira continua:
-Carne quebrada que solda,
Nervo torto que se endireite,
Osso rendido que volte ao lugar.
Com essas palavras de Deus e da Virgem Maria, tudo vai ser curado em teu corpo. Tudo vai ser soldado, com o nome de Deus e as três pessoas da Santíssima Trindade.
Após a reza, guarda - se o pano costurado para ser reutilizado por mais duas vezes.
Benze - se na segunda, na terça, e na quarta - feira.




Tempestade

Sinal da Cruz - A pessoa se benze e se volta para o lado em que se arma o temporal. Com a mão erguida faz uma cruz no céu, dizendo as seguintes palavras:
Santo Antônio pequenino,
Levantou – se e se vestiu.
Seu caminho caminhou.
Seu bordão na mão pegou.
Encontrou Nosso Senhor.
-Ó Santo Antônio, aonde vais?
-Senhor, eu vou ao céu espalhar a trovoada...
Que anda no Mundo desacordado.
-Ó Santo Antônio, espalha bem,
Lá pras bandas do Jordão
Que não caia pó nem grão
Em nenhum filho cristão.
Com o nome de Deus e as três pessoas da Santíssima Trindade.
(Repete-se três vezes esta oração)


Tempestade (outra fórmula):

Santa Bárbara levantou - se
Se vestiu e caminhou,
Seu condão na mão pegou
- Onde vai, Santa Bárbara?
- Eu vou lá no céu.
- Fazer o que Santa Bárbara?
-Espalhar a trovoada.
- Que saia tudo pras bandas do Jordão. Que não caia temporal sobre filhos de Cristão. Em nome do Pai e das três pessoas da Santíssima Trindade.

No livro Crenças Populares II, p.172, da Ilha Terceira (Açores), encontra-se uma benzedura muito semelhante a que D. Filuta recitava. Em todas elas permanece a rima e ritmo. Vejamos:
Santa Bárbara Virge
Se ergueu e se calçou,
Seu bastão na mão tomou
A Virge Maria encontrou
E perguntou-lhe:
Onde vais, Bárbara Virge?
Vou ao céu amansar as trovoadas,
Que elas vêm mui bravas.
Mandá-las para o monte marinho
D’onde não há pão nem vinho,
Nem gente da cristandade.
Me valham as Três pessoas
Da Santíssima Trindade.

       
 
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